Uma das formas mais universais de irracionalidade é a atitude tomada por quase toda a gente em relação às conversas maldizentes. Muito poucas pessoas sabem resistir à tentação de dizer mal dos seus conhecimentos e mesmo, se a ocasião se proporciona, dos seus amigos; no entanto, quando sabem que alguma coisa foi dita em seu desabono, enchem-se de espanto e indignação. Certamente nunca lhes ocorreu ao espírito que da mesma forma que dizem mal de não importa quem, alguém possa dizer mal deles. Esta é uma forma atenuada da atitude que, quando exagerada, conduz à mania da perseguição.
Exigimos de toda a gente o mesmo sentimento de amor e de profundo respeito que sentimos por nós próprios. Nunca nos ocorre que não devemos exigir que os outros pensem melhor de nós do que nós pensamos a respeito deles e não nos ocorre porque aos nossos olhos os méritos são grandes e evidentes ao passo que os dos outros, se na realidade existem, só são reconhecidos com certa benevolência. Quando o leitor ouve dizer que alguém disse qualquer coisa desprimorosa a seu respeito, lembra-se logo das noventa e nove vezes que reprimiu o desejo de exprimir, sobre esse alguém, a crítica que considerava justa e merecida, e esquece-se da centésima vez em que, num momento de desatenção, afirmou a respeito dele o que julgava ser a verdade. Esta é a recompensa, perguntará a si próprio, de toda a minha longa indulgência? O problema, visto do lado oposto, apresenta-se de uma forma diferente: ele nada sabe das noventa e nove vezes em que o leitor se calou, conhece apenas a centésima vez em que falou.
Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"
"-Acho que despertei e passei a ver o mundo como um lugar misterioso que nos proporciona tudo aquilo de que precisamos, desde que vejamos as coisas com clareza e avancemos no nosso caminho."
domingo, 6 de março de 2011
Individualismo muito cru
| Vivemos num individualismo muito cru. As pessoas são levadas a acreditar que a promoção do conforto físico e das aparências é o que mais conta. Existe uma desvalorização do conforto afectivo e moral. Existe a ideia errada de que podemos ser felizes sozinhos ou, pior ainda, contra os outros. |
| "Diário de Notícias (2007)" Peixoto , José Luís |
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Ithaca - Constantine P. Cavafy
When you set out on your journey to Ithaca,
pray that the road is long,
full of adventure, full of knowledge.
The Lestrygonians and the Cyclops,
the angry Poseidon -- do not fear them:
You will never find such as these on your path,
if your thoughts remain lofty, if a fine
emotion touches your spirit and your body.
The Lestrygonians and the Cyclops,
the fierce Poseidon you will never encounter,
if you do not carry them within your soul,
if your soul does not set them up before you.
�
Pray that the road is long.
That the summer mornings are many, when,
with such pleasure, with such joy
you will enter ports seen for the first time;
stop at Phoenician markets,
and purchase fine merchandise,
mother-of-pearl and coral, amber, and ebony,
and sensual perfumes of all kinds,
as many sensual perfumes as you can;
visit many Egyptian cities,
to learn and learn from scholars.
�
Always keep Ithaca on your mind.
To arrive there is your ultimate goal.
But do not hurry the voyage at all.
It is better to let it last for many years;
and to anchor at the island when you are old,
rich with all you have gained on the way,
not expecting that Ithaca will offer you riches.
�
Ithaca has given you the beautiful voyage.
Without her you would have never set out on the road.
She has nothing more to give you.
�
And if you find her poor, Ithaca has not deceived you.
Wise as you have become, with so much experience,
you must already have understood what these Ithacas mean.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Menina Júlia, August Strindberg
"Johan August Strindberg ( pronounced (help·info) (22 January 1849 – 14 May 1912) was a Swedish playwright and writer. He is arguably the most influential of all Swedish authors, and one of the most influential Scandinavian authors, along with Knut Hamsun, with whom he fraternized while in Paris during the mid 1890s, Henrik Ibsen, Søren Kierkegaard and Hans Christian Andersen. Strindberg is known as one of the developers of modern theatre. His work is of two major literary styles, Naturalism and Expressionism."
"Strindberg concentra a acção de Menina Júlia, comprimida em dois dias, num único espaço e desenvolve-a apenas num acto. "
"Em Menina Júlia, encontramos nós, segundo Yann Martel, «diálogos tão brilhantes e plenos de tensão, aparentemente tão simples, e indiciando, no entanto, tal tumulto e complexidade, que, paradoxalmente, nos parecem perfeitamente naturais»."
""Menina Júlia", de Strindberg, mostra como é preciso muito pouco para que o poder mude de mãos. E depois volte a mudar. E mude ainda outra vez. "
"O poder dos outros sobre nós não depende da classe social ou do sexo - depende sobretudo do momento em que a vida deles se cruza com a nossa. A menina Júlia não sabia disso. Mas descobriu."
"Strindberg concentra a acção de Menina Júlia, comprimida em dois dias, num único espaço e desenvolve-a apenas num acto. "
"Em Menina Júlia, encontramos nós, segundo Yann Martel, «diálogos tão brilhantes e plenos de tensão, aparentemente tão simples, e indiciando, no entanto, tal tumulto e complexidade, que, paradoxalmente, nos parecem perfeitamente naturais»."
""Menina Júlia", de Strindberg, mostra como é preciso muito pouco para que o poder mude de mãos. E depois volte a mudar. E mude ainda outra vez. "
"O poder dos outros sobre nós não depende da classe social ou do sexo - depende sobretudo do momento em que a vida deles se cruza com a nossa. A menina Júlia não sabia disso. Mas descobriu."
" "Estas são personagens instáveis, como todos nós, e mudam constantemente", diz Rui Mendes. "Nunca sabemos onde está a inocência e onde está a culpa, onde está a agressividade e onde está o medo, a fuga. É por isso que esta é uma peça que será sempre actual enquanto houver seres humanos."
Apesar de ter sido escrita em 1888 e de ter na base uma questão de classes (que Strindberg, filho de um aristocrata falido e de uma antiga empregada doméstica, conhecia bem), "Menina Júlia" é muito mais do que a história do criado que sonha ascender e da filha do conde atraída pela queda.
"Strindberg é um dos iniciadores do teatro moderno, que abandona as personagens monolíticas, muito tipificadas, sem altos e baixos", continua o encenador. "E esta peça é de uma época de transformações extraordinárias, com lutas sociais, a luta pela libertação da mulher, em que se começam a analisar os comportamentos, a alma, o carácter dos indivíduos." "
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quarta-feira, 15 de setembro de 2010
O MITO DE SÍSIFO

in Albert Camus (Ensaio sobre o Absurdo)
Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
Se acreditarmos em Homero, Sísifo era o mais sábio e mais prudente dos mortais. Segundo uma outra tradição, porém, ele tinha queda para o ofício de salteador. Não vejo aí contradição. Diferem as opiniões sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador inútil dos infernos. Reprovam-lhe, antes de tudo, certa leviandade para com os deuses. Espalhou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai, abalado por esse desaparecimento, se queixou a Sísifo. Este, que tomara conhecimento do rapto, ofereceu a Asopo orientá-lo a respeito, com a condição de que fornecesse água à cidadela de Corinto. Às cóleras celestes ele preferiu a bênção da água. Foi punido por isso nós infernos. Homero nos conta ainda que Sísifo acorrentara a Morte. Plutão não pôde tolerar o espetáculo de seu império deserto e silencioso. Despachou o deus da guerra, que libertou a Morte das mãos de seu vencedor.
Diz-se também que Sísifo, estando prestes a morrer, imprudentemente quis pôr à prova o amor de sua mulher. Ele lhe ordenou jogar o seu corpo insepulto em plena praça pública. Sísifo se recobrou nos infernos. Ali, exasperado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão o consentimento para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando ele de novo pôde rever a face deste mundo, provar a água e o sol, as pedras aquecidas e o mar, não quis mais retornar à escuridão infernal. Os chamamentos, as iras, as advertências de nada adiantaram. Ainda por muitos anos ele viveu diante da curva do golfo, do mar arrebentando e dos sorrisos da terra. Foi necessária uma sentença dos deuses. Mercúrio veio apanhar o atrevido pelo pescoço e, arrancando-o de suas alegrias, reconduziu-o à força aos infernos, onde seu rochedo estava preparado.
Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo. Nada nos foi dito sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste caso, vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo; então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície.
É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que pena, assim tão perto das pedras, é já ele próprio pedra! Vejo esse homem redescer, com o passo pesado, mas igual, para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade, essa hora é aquela da consciência. A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo.
Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo 0 sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo.
Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela também pode se fazer para a alegria. Esta palavra não está demais. Imagino ainda Sísifo indo outra vez para seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se mantêm muito intensas na lembrança, quando o apelo da felicidade se faz demasiadamente pesado, acontece que a tristeza se impõe ao coração humano: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O enorme desgosto é pesado demais para carregar. São nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas. Assim, Édipo de início obedece ao destino sem o saber. A partir do momento em que ele sabe, sua tragédia principia. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, reconhece que o único laço que o prende ao mundo é ó frescor da mão de uma garota. Uma fala descomedida ressoa então: "Apesar de tantas experiências, minha idade avançada e a grandeza da minha alma me fazem achar é que tudo está bem”. O Édipo de Sófocles, como o Kirílov de Dostoiévski, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga torna a se encontrar com o heroísmo moderno.
Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve ser acertado entre os homens.
Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar.
Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Cows Can Be Purple
Cows Can Be Purple
By Linda Ferguson on May 25, 2010
My grandmother was born in an ethnic neighborhood of Chicago in 1900 and had never seen a live cow growing up. In first grade her class was given cut-out farm animals and told to trace and color them. She had a cow to draw and painted it purple because she liked the color purple. The teacher ridiculed my grandmother for coloring a cow purple and exclaimed that ‘cows aren’t purple’. The teacher ripped up the cow in front of the class and told my grandmother to start over, this time painting the cow brown or black.
Luckily for my grandmother, at age ten her best friend convinced my grandmother to take an art class with her. From there my grandmother found a deep life long passion for art. She went on to study in France and become a professional painter, and later in the 1960’s, she became a pioneer in the field of art therapy. My grandmother’s biography, written when she was in her 80′s, was called “Cows Can Be Purple”. My grandmother was able to move past the message quite clearly given to her that she should not be creative in what she drew.
Were you ever given messages of what you can’t do? Are you still carrying around those messages? Perhaps when you were young, adults you trusted or respected squashed a dream or stifled your ideas. You may know people who have had their dreams stepped on or who put a box around their ambitions because it wasn’t accepted by others. Too many times we carry those messages of what we can’t do with us for years, never examining or questioning whether they are true for us or not. What a waste of potential talent, energy, and joy.
I will write several blogs about the self-limiting beliefs we carry and how those hold us back from fully living and being true to our passions and purpose. For now I want to invite you to step into the potential that awaits you. What possibilities are there that you’ve been waiting to explore?
Here are some suggestions for looking at the world through the lens of potential and possibility. First, challenge your mental framework by asking yourself – What If?
* What if I didn’t buy into a self-limiting belief about myself –that I’m unmotivated, not smart enough, unloved etc.
* What if I stopped seeking other people’s approval or stopped worrying about disappointing others?
* What if I was infinitely supported by the Universe to follow my soul’s calling?
* What if I believed I was talented, loved, lovable, creative? How would I live if that were so?
Try these questions out for a while and see what bubbles up for you. Maybe you’ll hear that inner calling to try something that you’ve been thinking of doing for some time. Perhaps you’ll feel the nudge that’s been pushing you to step out a bit farther into the unknown. See if there are things rumbling in your soul that you feel you need to discover. Answer these questions and sit with what stirs for you.
I leave you these words from the poet Rumi:
Be melting snow, wash yourself of yourself.A white flower grows in the quietness,Let your tongue become that flower.
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terça-feira, 17 de agosto de 2010
Ricordati di me
Filme de 2002
Paz podre, lutar pelo Sim ou ficar confortavelmente no Não.
Paolo: Valentina, dimmi la verità, che pensi di me? Come sono visto da fuori?
Valentina: Lo sai cosa penso di te.
Paolo: Dimmelo ancora.
Valentina: Penso che sei anonimo e inespressivo, quando parli sembra che c'hai uno strofinaccio in bocca e non si capisce un cazzo, non ti lavi e ti vesti da sfigato di sinistra quando il mondo va tutto da un'altra parte. Questo penso.
Paolo: Nient'altro?
Valentina: No, a posto così.
Paz podre, lutar pelo Sim ou ficar confortavelmente no Não.
Paolo: Valentina, dimmi la verità, che pensi di me? Come sono visto da fuori?
Valentina: Lo sai cosa penso di te.
Paolo: Dimmelo ancora.
Valentina: Penso che sei anonimo e inespressivo, quando parli sembra che c'hai uno strofinaccio in bocca e non si capisce un cazzo, non ti lavi e ti vesti da sfigato di sinistra quando il mondo va tutto da un'altra parte. Questo penso.
Paolo: Nient'altro?
Valentina: No, a posto così.
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